quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

UMA BREVE HISTÓRIA NATALINA


Chico olha a vitrine, seu sorriso não é lá essas coisas de estética...,desdentado vislumbra uma boneca que fala, que canta, espia um vestido bonito, pensa na sua véia e na filha de cinco anos que jamais ganharia uma boneca dessas. Já é quase meia noite e Chico se mistura entre o frenesi das madames e dos bacanas que listam cada sua festa...Como se estivessem se preparando para um novo apocalipse.

Em algum lugar o espírito natalino se esconde, talvez no amigo invisível que ignora o menino Jesus como símbolo maior do natal, talvez no champanhe que embriaga os homens anestesiando suas almas e corações sedentos de amor, amor de verdade, e não apenas um ritual mecânico que se repete em todos os dias na véspera do natal, com a troca de presentes movidos pela onda consumista que tem como carro chefe o refrão”Feliz Natal”

Chico peregrina pelas ruas, na esquina encontra Maria José e o menino Jesus embrulhado em papelão..todos na esperança de que apareçam os Reis Magos...
Alguém chuta a manjedoura de Jesus por atrapalhar o passeio público

Chico olha José Chorando, Maria triste e Jesus tentando compreender porque tanto ódio, tanta indiferença e porque a cobiça envenenou a alma dos homens na mesma velocidade em que escrevo essas linhas na esperança de que sejam lidas.


Chico que continuava sua peregrinação em busca do Menino Jesus, não o encontrou em determinadas igrejas que louvavam o seu nome sob o manto encardido da pompa e da hipocrisia dissimulado em nome da fé.

Não encontrou o Menino Jesus no patrão que lhe desejou Feliz Natal e prospero ano novo, sem se preocupar que ele tinha algo pra comer, se e sua magra ceia ia ter pelos menos um feijão, arroz, um ovo...Já que Peru e Bacalhau estavam tão distantes do bolso quanto a boneca que fala e o vestido bonito que cairia bem no manequim de Cremilda


Desiludido Chico, pedreiro desempregado catou as últimas moedas em seu bolso esfarrapado, entrou na bodega e num drama. As moedas dariam para ele tomar 10 doses de cachaça e esquecer seu mundo miserável, sem perspectivas, sem natal, sem Papai Noel, mas também poderia comprar quatro ovos, duas sardinhas e um kilo de farinha que bem dividido daria uma bela ceia pra ele Cremilda e as quatro crianças.

Quando caminhava na ponte que o levaria ao humilde barraco, já quase meia noite Chico ouviu uma voz suave vindo de algum lugar. Era voz de um anjo lhe desejando Feliz natal e anunciando que se para os outros que faziam festa e deixavam o aniversariante de fora, era invisível, Jesus verdadeiramente era seu amigo visível...E não precisava de presentes banais para ser conquistado.


Chico havia dado o maior presente que Jesus há muito esperava de todos nós, sua pureza de alma e fé para compreender verdadeiramente a essência da festa de natal...Por sinal alguém ai poderia explicar por onde anda esse tal “espírito natalino?”

Por Zeca Tapajós
Escritor e Filósofo Tupiniquim






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