Por JE Amaral-
Um grande amigo meu durante uma campanha de campo na região de Jacaréacanga no Pará, lá pelos idos de 1976, passou por uma experiência muito interessante. Naquele tempo os trabalhos de campo demandavam muito tempo, no mínimo 60 dias no mato, apartado de tudo e de todos, só tendo notícia do mundo através do chiador radiozinho de pilha.
Como companhia apenas os 4 integrantes da equipe de campo, que faziam os trabalhos de coleta de amostras de rocha, solo e bateiamento de metais pesados.
Ele na época era geólogo recém-formado, com pouca experiência de campo e principalmente de vida. Mas prestando atenção na experiência dos mateiros, os erros eram em muito minimizados. Pois bem. A equipe chegava do mato (selva mesmo) e após deixar o material todo numa casa velha que nos servia de base central na pequena cidade, tomar um banho e comer a comida boa da Dona Comadre, nossa cozinheira, rumava direto prá rua das casas da luz vermêia, que eram muitas, para todos os gostos.Esse meu amigo gostava de um trago brabo e bebia até não poder mais, até alta madrugada, dançando sem parar com as mariposas presentes, que não se faziam de rogadas e enxugavam muito também.
O fato é que era divertido mesmo, pois mulher naquela altura do campeonato era uma dádiva. Imaginem só, 60 dias ou mais, socado no mato só conversando com homem, lendo e relendo revistas de mulher pelada, só sonhando, sonhando com o trem, e de repente lá está com uma diva nos braços. Era bom demais, sem dúvida nenhuma.
Foi assim que pude entender o espírito festeiro do garimpeiro bamburrado, que gastava até o último vintém com as moças das casas da luz vermêia. Pois bem, o nosso herói passou a noite dançando e bebendo até não mais poder, e finalmente foi guiado pela namorada para um quartinho, lá no fundo de um corredor mais comprido que discurso de gago. Ali pôde finalmente dar vazão a tudo que havia sonhado naqueles dias intermináveis, no meio da macharada. Esta história de mulher feia é puro golpe de vista, todos sabem.
A noite etílica acaba com o golpe de vista de qualquer um, o que é uma baita vantagem. Ali naquela festa só tinha miss e modelo, cada uma melhor que a outra. Como dizia o Gordo Babaca, “urubu em tempo de guerra é galinha”.
Depois de passada a festa e a orgia sem fim, finalmente dormiram. De manhã meu amigo acordou com o calorão da Amazônia queimando o couro. Olhou para o lado e lá estava o dragão dormindo satisfeita, roncando igual rebocador rio acima. Na garganta a sede feroz de um herói desidratado, na cabeça uma dor maior do mundo, não dava nem para mexer os olhos direito, doía tudo. Lá longe no canto do quartinho, estava um filtro de barro “São João” cheiinho de água fresquinha. Em cima um caneco esmaltado, esperando para ser usado. A sede era muita, a garganta ardia, a cabeça estourava de dor. Mas e coragem para levantar e ir até o filtro, onde estava a água redentora?
O calor só aumentava, o telhado de folha zincada multiplicava o efeito de forno no quartinho, o corpo empapado de suor e a sede aumentando, aumentando. Foi então que o meu amigo se virou devagar, bem devagar como suas precárias condições físicas permitiram, e viu sobre o criado-mudo, ao lado da agora mocréia, um copo transbordante da água salvadora.
Sem pestanejar, num arroubo heróico, num último esforço, tomou para si o copo e bebeu sofregamente. Uma maravilha de sensação, que o corpo agradecia. Nos goles finais, sentiu uma coisa dura bater na boca e olhou dentro do copo. Era a dentadura da namorada que jazia ali a noite toda.Essas coisas acontecem, né? Fazer o quê?.
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