domingo, 4 de abril de 2010

A Oração de Joe Wright

No dia 23 de janeiro de 1996 realizou-se a cerimônia de abertura dos
trabalhos da Casa Legislativa do Estado do Kansas (EUA), na cidade de
Topeka. Por lá estava o capelão substituto Joe Wright, o qual foi
convidado a dizer algumas palavras em reverência ao momento. Eis que, para
espanto geral, ele sacou da memória uma *oração de autoria do pai de Bob
Russell, da Igreja Cristã de Louisville, Kentucky (EUA), iniciando uma
das maiores polêmicas que aquele lugar já tinha visto! Transcrevo, a seguir,
suas palavras:

“Ó, Senhor, sabemos o que diz Sua palavra, ‘maldição aos que chamam o mal de
bem’, mas é exatamente o que temos feito. Nós temos perdido o equilíbrio
espiritual e invertido nossos valores. Nós confessamos que temos
ridicularizado a verdade absoluta da Sua palavra e chamado a isto pluralismo
moral. Nós temos adorado outros deuses e chamado a isto diversidade
cultural e espiritualidade dos novos tempos. Nós temos cometido adultério e
chamado a isto um caso. Nós temos aprovado a perversão e chamado a isto
estilo de vida alternativo.”
E prosseguiu ele: “Nós temos explorado os
pobres e chamado a isto destino. Nós temos negligenciado os necessitados, e
chamado a isto gestão econômica. Nós temos recompensado a inércia e chamado
a isto bem-estar social.
Nós temos assassinado nossos filhos que ainda não
nasceram, e chamado a isto escolha. Nós temos sido negligentes ao
disciplinar nossos filhos, e chamado a isto desenvolvimento de autoestima”.
Diante de uma já agitada platéia, a oração continuou: “Nós temos deixado de
executar a justiça rapidamente, conforme Seu comando, e chamamos a isto de
devido processo legal. Nós temos encarcerado ofensores não-violentos ao
invés de darlhes a oportunidade de uma reparação, e chamado a isto proteger
a sociedade. Nós temos deixado estupradores e assassinos livres para
escárnio dos inocentes e chamado a isto justiça”.

A esta altura, segundo consta, algumas pessoas já haviam se retirado da sala
em protesto. Mas ele prosseguiu:

“Nós temos falhado em amar nosso vizinho por conta da cor de sua pele, e
chamado a isto manutenção da pureza racial. Nós temos abusado do poder, e
chamado a isto política. Nós temos cobiçado as coisas de nossos vizinhos, e
chamado a isto ambição. Nós temos poluído o ar com profanações e
pornografia, e chamado a isto liberdade de expressão. Nós temos feito do Dia
do Senhor o maior dia de compras da semana, e chamado a isto livre empresa.
Nós temos ridicularizado os honrados valores de nossos ancestrais, e
chamado a isto iluminação”.

Como podemos facilmente imaginar, iniciou-se ali uma polêmica daquelas
acirradas. Alguns acusaram o capelão Joe Wright de intolerante, enquanto
outros enalteceram sua coragem. Poucos meses depois, quando o assunto já
estava meio que esquecido, deram a palavra a um parlamentar de nome Mark
Paschall, em uma cerimônia acontecida na Casa Legislativa do Colorado. E
eis que o dito cujo repetiu, letra por letra, aquela que acabou sendo
conhecida como “a oração de Joe Wright ”.
Também lá, segundo apurei,
muitas pessoas se retiraram do recinto em protesto, enquanto outras
aplaudiam vivamente.
Uns bons 14 anos se passaram desde aquela manhã na
cidade de Topeka, mas a polêmica continua, aqui e ali. E tenho que
continuará por muito tempo. Afinal, como dizia Mark Twain, “nada precisa de
tantas reformas quanto os hábitos dos outros”






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